O Bacalhau na Sexta-Feira Santa: Raízes Históricas e Significado Religioso
Nos quase 40 anos de serviço sacerdotal, o padre Eugênio Ferreira de Lima levanta uma questão que ressoa em muitas mesas brasileiras durante a Quaresma: por que, em muitas famílias católicas, o bacalhau se tornou o prato principal na Sexta-Feira Santa? Para ele, essa tradição provoca reflexões profundas, especialmente em tempos de alta de preços e inflação.
“Por que optar por um alimento tão caro como o bacalhau ao invés de carne vermelha, que é mais acessível?”, questiona o padre Lima. Essa interrogação transcende a simples escolha alimentar e nos leva a investigar as complexidades sociais e religiosas que cercam esta prática.
A História por Trás do Bacalhau
O consumo de bacalhau na Sexta-Feira Santa tem raízes profundas na colonização portuguesa, na prática do jejum cristão e nas necessidades econômicas da época. O historiador André Leonardo Chevitarese, professor da UFRJ, afirma que a escolha do bacalhau não se resume apenas a uma questão econômica, mas também é intrinsecamente ligada a simbolismos religiosos ligados ao sacrifício de Jesus na cruz.
Muitas vezes, a escolha de não consumir carne vermelha e optar por peixe está mais relacionada a um costume religioso do que a uma lógica de economia familiar. A abstinência durante a Quaresma, apesar de ter raízes na tradição católica, levanta questões sobre os vínculos entre a religião e a cultura do consumo.
Prática do Jejum e suas Origens
O hábito de jejuar é uma tradição antiga no cristianismo. Mirticeli Medeiros, vaticanista da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, afirma que a prática do jejum remonta aos primeiros séculos da era cristã. “Não havia um alimento específico sendo associado ao jejum inicialmente; foi a Idade Média que começou a definir padrões alimentares durante o período de prática religiosa”, explica Medeiros.
Durante a Quaresma, que culmina na celebração da Páscoa, muitos cristãos se abstêm da carne vermelha como parte de um percurso espiritual de reconciliação. Historicamente, o peixe, especialmente o bacalhau, se tornou um substituto viável devido a sua durabilidade e ao seu valor simbólico. A prática era pragmática — em tempos sem refrigeração, o bacalhau fornecia uma opção conservável.
A Simbologia do Peixe
Embora o peixe tenha sido amplamente adotado como uma alternativa à carne vermelha, a conexão com a simbologia cristã é inegável. Os primeiros seguidores de Cristo eram pescadores, o que adiciona uma camada cultural ao consumo de peixe nos dias de hoje. “A ideia do peixe como símbolo de Cristo é parte da narrativa cristã, onde o peixe (ichthys, em grego) representa Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”, afirma Chevitarese.
A Influência Portuguesa e o Bacalhau no Brasil
A tradição de consumir bacalhau durante a Quaresma no Brasil é amplamente atribuída à influência portuguesa, que introduziu o prato no século 19. A chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808 fez com que muitos produtos estrangeiros, incluido o bacalhau, se tornassem populares nas mesas brasileiras. Medeiros comenta que “o bacalhau era uma opção prática, que poderia ser conservada sem refrigeração, facilitando a adoção desse hábito na não necessariamente fria Quaresma brasileira”.
Nessa lógica, a tradição do bacalhau na Sexta-Feira Santa tornou-se tão enraizada que hoje, além do sabor, está imersa em um contexto de festividade e peculiaridade cultural. O advogado teológico Gerson Leite de Moraes menciona que “a lógica da penitência e da abstinência se entrelaçam com a resistência de não consumir carne vermelha, criando assim um ritual que perdura na sociedade moderna”.
Uma Tradição Comemorada
Com o passar dos anos, a relação entre o bacalhau e a Semana Santa transcendeu a prática religiosa e tornou-se um elemento essencial da cultura culinária brasileira. Em muitas famílias, a Sexta-Feira Santa é marcada pelo cheiro característico do bacalhau preparando à mesa, tornando-se uma celebração que agrega tanto um simbolismo religioso quanto a confraternização familiar.
O consumo do bacalhau, que tem suas raízes em tradições profundamente históricas e religiosas, evoluiu para uma prática comercial. À medida que os hábitos alimentares se transformam e as festas religiosas se adaptam às exigências contemporâneas, o bacalhau continua a ser um símbolo de fé, tradição e, em muitas situações, um produto de mercado. Consoante essas mudanças, voltamos a questionar: será que a tradição ainda ressoa nas novas gerações ou está se tornando meramente um símbolo do comércio?
Fonte: G1 Agro
Palavras Chave: Bacalhau, Sexta-Feira Santa, Quaresma, tradição católica, jejum, influência portuguesa, consumo de peixe, simbolismo religioso,
