Desafios da Substituição de Cultivos Ilícitos na Colômbia: A Luta dos Agricultores de Coca
A Colômbia, conhecida por sua rica biodiversidade e culturas ancestrais, enfrenta um paradoxo complexo: enquanto o governo implementa programas para substituir o cultivo de coca, que é amplamente utilizado na produção de cocaína, muitos agricultores se veem retornando a essa prática devido a uma combinação de fatores econômicos e sociais. O agricultor Perea, que abandonou a coca em busca de uma vida melhor, ilustra bem essa realidade ao afirmar que a assistência prometida nunca chegou.
O Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos Ilícitos
Iniciado como uma iniciativa promissora após o acordo de paz de 2016 entre o governo colombiano e as FARC, o Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos Ilícitos (PNIS) tinha como objetivo trocar o cultivo de coca por alternativas legais tais como mandioca e banana. Contudo, apesar da adesão de milhares de agricultores, a desilusão prevalece. A falta de infraestrutura, como estradas e transportes adequados, associada a inundações recorrentes, tem dificultado a comercialização das novas culturas.
A Realidade de Perea e Outros Agricultores
Perea, por exemplo, plantou mandioca e banana, mas a realidade de seu dia a dia forçou-o a retornar ao cultivo de coca. “É uma tragédia”, desabafa. “Quando você tem filhos e nenhuma fonte de renda, não há escolha.” Essa afirmação ecoa na voz de muitos agricultores que se veem em situações semelhantes, criando um ciclo recorrente de dependência econômica da coca.
A Resiliência do Cultivo de Coca
A folha de coca, sendo uma cultura ancestral, tem suas raízes profundamente inseridas na cultura colombiana. Embora tradicionalmente utilizada para chás e medicamentos pelas comunidades indígenas, hoje, seu cultivo é amplamente voltado para o mercado ilícito. As vantagens que a coca proporciona, como um ciclo de colheita rápido e familiaridade com o mercado, aumentam a atratividade em relação a culturas legais.
Promessas Não Cumpridas e Fragilidades Estruturais
Pesquisadores apontam que, embora o PNIS tenha inicialmente demonstrado resultados positivos em algumas regiões, os problemas estruturais e de governança começaram a emergir rapidamente. Elena Hernández, outra agricultora, afirmou que os problemas começaram já nos primeiros dias do programa, com atrasos nos pagamentos e falta de apoio técnico adequado. A descontinuação do interesse político na iniciativa durante a presidência de Iván Duque contribuiu ainda mais para a estagnação do programa.
A Insegurança e os Desafios do Cultivo
Além das questões econômicas, a insegurança também é uma realidade enfrentada pelos agricultores. A violência relacionada ao tráfico de drogas torna-se uma barreira à implementação eficaz dos programas de substituição. Grupos armados frequentemente ocupam o espaço deixado pelas antigas guerrilhas, controlando rotas de tráfico e impondo suas próprias regras. Michael Weintraub, especialista em segurança e drogas, menciona que a demanda internacional por cocaína perpetua o ciclo de cultivo em áreas rurais da Colômbia.
Esperança e Mudanças no Cenário Atual
Recentemente, o governo colombiano apresentou o RenHacemos, uma iniciativa que busca retomar e corrigir os erros do PNIS. Este novo programa não apenas oferece apoio financeiro, mas também foca na diversificação econômica, buscando melhorias na infraestrutura, acesso à educação e condições de moradia. No entanto, muitos ainda permanecem céticos quanto à eficácia deste novo esforço, questionando se realmente conseguirá oferecer as mudanças necessárias para proporcionar alternativas viáveis aos agricultores.
O Futuro do Cultivo de Coca na Colômbia
Para agricultores como Perea e muitos outros, a luta continua. A dependência da coca permanece como uma resposta à falta de opções e assistência. “O Estado nos abandonou completamente”, diz Perea, que vê no cultivo de coca a única alternativa viável para a sua sobrevivência e de sua família. A realidade que envolve o cultivo de coca na Colômbia é um complexo emaranhado de desafios políticos, sociais e econômicos, que exigem uma atenção mais robusta e persistente para se vislumbrar um futuro onde alternativas sustentáveis possam florescer.
Fonte: G1 Agro
Palavras Chave: Colômbia, cultivo de coca, PNIS, substituição de cultivos, economia rural, cocaína, agricultores, políticas públicas, violência, ilegalidade,
