A Luta de Adda Vyctoria Caetano: Uma Mulher Trans Quilombola Contra o Preconceito e a Invisibilidade

Publicado em: 30/06 11:00

A Luta de Adda Vyctoria Caetano: Uma Mulher Trans Quilombola Contra o Preconceito e a Invisibilidade

A Luta de Adda Vyctoria Caetano: Uma Mulher Trans Quilombola Contra o Preconceito e a Invisibilidade

A história de Adda Vyctoria Caetano é um poderoso testemunho de resistência e luta no campo da diversidade e inclusão. Aos 10 anos, quando se assumiu como transgênero para sua mãe, Adda recebeu um alerta sobre as dificuldades que enfrentaria: ‘Você sabe que vai sofrer pedradas da vida’. Hoje, com 37 anos, ela é uma liderança respeitada na comunidade quilombola de Conceição dos Caetanos, situada no município de Tururu, no Ceará. Esta comunidade, como muitas outras, é composta por descendentes de escravizados, que se conectam profundamente com sua terra e ancestralidade.

Vivendo em um quilombo, Adda se depara não apenas com a transfobia, mas também com o racismo e a invisibilidade frequentemente enfrentados pela população LGBT nas zonas rurais. Como ela mesma compartilha: ser uma liderança comunitária não a protege do preconceito. Moradores insistem em chamá-la pelo nome de nascimento e duvidam de sua capacidade em liderar o cuidado da horta e a tomada de decisões importantes para a comunidade.

A Importância da Liderança e da Inclusão

Como uma forma de promover a inclusão e combater a discriminação, Adda fundou o coletivo África Nordestina e participa ativamente da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). Apesar dos desafios, Adda mantém uma visão otimista. Ela lidera um grupo de jovens na sua comunidade, promovendo diálogos e oportunidades de capacitação, tentando assim quebrar padrões de preconceito presentes até mesmo nas famílias.

A crescente participação dos jovens nas atividades da comunidade incentiva a esperança de que o preconceito possa ser reduzido. Adda afirma que inicialmente houve resistência dos pais em permitir que seus filhos se envolvessem, mas com o tempo, eles começaram a notar mudanças positivas. Os jovens não estavam mais apenas nas esquinas; eles estavam engajados em ações sociais significativas.

Desafios Enfrentados pela População LGBT Quilombola

Apesar dos avanços, os desafios são enormes. Um levantamento do IBGE em 2022 revelou que apenas 0,8% dos moradores da zona rural se identificaram como homossexuais ou bissexuais, mas não há dados confiáveis sobre a população trans. A falta de dados atualizados prejudica a análise das necessidades específicas desta parte da população, e Adda aponta que os levantamentos nacionais frequentemente ignoram a identidade quilombola, tornando ainda mais difícil o reconhecimento dos direitos de pessoas como ela.

A falta de políticas públicas direcionadas aos LGBT quilombolas acentua ainda mais as dificuldades. A escassez de empregos, o acesso precário à saúde e à educação são apenas algumas das questões que emergem. Adda relata a impressão negativa que muitos cidadãos têm sobre a capacidade profissional das pessoas trans, levando muitos a sentir que a única alternativa é deixar o quilombo em busca de melhores condições de vida.

Os Aspectos Estruturais do Preconceito

As disparidades sociais e econômicas enfrentadas pela população quilombola são agravadas pelo racismo estrutural. O preconceito sistemático que Adda aponta se reflete na falta de acesso a informações e serviços, como agricultura familiar e programas de geração de renda, além das dificuldades em acessar assistência médica adequada. Uma experiência pessoal dela ilustra bem essa questão: ao solicitar um check-up, foi direcionada apenas para testes de doenças sexualmente transmissíveis, a partir da sua identificação como mulher trans, em vez do acompanhamento médico necessário.

A realidade educacional também é desafiadora, com escolas rurais que não estão preparadas para acolher e apoiar crianças trans. O bullying e a falta de transporte escolar muitas vezes levam jovens a desistirem dos estudos. Adda realça que o contexto familiar e socioeconômico, em especial em áreas de baixa renda, complica ainda mais a situação, podendo, em casos extremos, resultar em suicídio entre jovens que não encontram apoio.

Um Chamado à Ação

A luta de Adda Vyctoria Caetano não é apenas por si mesma, mas por todos os LGBT que enfrentam preconceitos e invisibilidade em suas comunidades. Ela representa uma voz forte na demanda por políticas públicas claro e efetivas que reconheçam suas realidades e necessidades. Para que uma verdadeira mudança ocorra, é imprescindível que os dados sobre a população LGBT quilombola sejam coletados e que as políticas de inclusão sejam elaboradas, garantindo que todos tenham acesso aos direitos humanos garantidos na Constituição, na teoria, mas que muitas vezes não são praticados na realidade.

Segundo Adda, “para a gente existir, a gente precisa resistir”. A sua história é um exemplo de coragem e resiliência, apontando para a importância de se unir esforços para combater o preconceito e garantir um futuro melhor para todos.

Fonte: G1 Agro

Palavras Chave: Adda Vyctoria Caetano, mulher trans quilombola, preconceito, invisibilidade LGBT, diversidade no campo, liderança quilombola, racismo, direitos humanos, políticas públicas, inclusão social,

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