A Ascensão das Exportações de Carne Bovina do Brasil para a Argentina em 2023
O setor agropecuário brasileiro presencia um fenômeno surpreendente neste ano: as exportações de carne bovina para a Argentina dispararam, registrando um aumento superior a 20 vezes na comparação com o mesmo período de 2022. Segundo dados do Ministério da Agricultura, entre janeiro e outubro de 2023, foram vendidas 11 mil toneladas de carne bovina para o país vizinho, em contraste com as apenas 526 toneladas embarcadas em 2022.
Apesar desse crescimento expressivo, a Argentina ainda não se destaca como um dos principais compradores da carne brasileira, uma vez que suas importações representam menos de 1% do volume total adquirido pela China, cliente de destaque nas exportações brasileiras. Contudo, a explosão das vendas despertou a atenção de especialistas do setor, que identificaram duas causas principais para esse aumento: as sobretaxes impostas pelos Estados Unidos ao Brasil e a significativa queda na produção de carne na Argentina.
Efeito Tarifaço sobre a Carne Brasileira
Os analistas do mercado agropecuário explicam que o 'tarifaço' iniciado pelos Estados Unidos em abril de 2023 incentivou os produtores argentinos a aumentar as exportações de carne para os americanos. Como a Argentina ocupa o quinto lugar na lista dos maiores produtores de carne bovina do mundo, atrás de potências como Brasil, Estados Unidos, China e Índia, a necessidade de compensar a demanda interna se tornou evidente.
Com o consumo de carne bovina per capita mais alto do mundo, os argentinos, diante da pressão de aumentar suas vendas externas, recorreram à carne brasileira para garantir o abastecimento no mercado doméstico. Um dos picos de importação da carne brasileira pelos argentinos aconteceu em setembro, logo após o aumento das taxas de exportação ao Brasil.
Queda na Produção Local
Ainda que o tarifaço tenha influenciado nas compras, outros fatores contribuíram para o aumento das importações argentinas. A diminuição da produção local, que já apresenta uma tendência de queda há dois anos, é uma consequência direta de prolongadas secas e medidas econômicas disciplinadas pelo governo anterior. Estas medidas incluíam restrições à exportação que culminaram em uma redução significativa da produção de carne na Argentina.
Em análises realizadas pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), as previsões até 2025 indicam uma diminuição de 100 mil toneladas na produção argentina, reforçando a tendência de desabastecimento local. Fernando Henrique Iglesias, consultor da Safras & Mercados, aponta que a combinação dos efeitos do fenômeno climático La Niña e das altas taxas de produção comprometeram a capacidade reprodutiva do rebanho, levando a uma diminuição drástica no número de bovinos.
Mudanças Políticas e seus Impactos
A abordagem política atual em relação ao setor agropecuário, sob o comando de Javier Milei, representa um afastamento considerável das políticas de seu antecessor, Alberto Fernández. O governo de Milei cortou as taxas de exportação da carne bovina, que foram zeradas entre 22 de setembro e 31 de outubro, criando um ambiente favorável para o aumento das exportações argentinas e, consequentemente, afetando o mercado da carne em níveis regionais.
Mientras isso, dados indicam uma queda nas exportações argentinas em relação ao mesmo período em 2022, reforçando a ideia de que a compra de carne brasileira é uma solução temporária para os problemas enfrentados na produção local. A combinação de preços mais baixos na carne brasileira, onde o quilo é vendido a aproximadamente US$ 61, em comparação com os US$ 74,8 na Argentina, torna o Brasil um fornecedor atraente para o mercado argentino.
Perspectivas Futuras para o Comércio de Carne
Embora tenha havido uma queda nas importações de carne brasileira pela Argentina em outubro, comparativamente a setembro, a expectativa é que as vendas continuem em alta, segundo Iglesias. As projeções sugerem que a produção na Argentina deve permanecer abaixo de seus níveis normais durante os próximos anos, impulsionando assim uma necessidade crescente de importação.
Em suma, a nova dinâmica do mercado de carne bovina entre Brasil e Argentina reflete alterações econômicas, tarifárias e ambientais que moldam a capacidade de ambos os países de atender à demanda interna. Para o Brasil, esse crescimento nas exportações representa não apenas uma oportunidade, mas também um indicativo das complexidades e das inter-relações do mercado agropecuário global.
Fonte: G1 Agro
Palavras Chave: exportações, carne bovina, Brasil, Argentina, tarifaço, produção de carne, agropecuária, mercado internacional, economia,
